Você já se sentiu preso num lugar onde sabe que deve estar naquele momento? A sensação é parecida com esta: você pensa ter vivido tudo o que já tinha para viver naquele lugar e naquelas condições

E logo à frente você enxerga uma porta entreaberta, por onde você quer desesperadamente passar. Parece que algo muito melhor está ali, e parece ser um lugar de liberdade!

Por que será este sentimento de sempre “amanhã”? Por que o “algo depois” parece ser sempre melhor? E por que essa pressa que insiste em anular o hoje e tornar os dias de Antonia tão mais inexistentes e in-vividos? Ah, eu não apresentei Antônia, peço desculpas. É que me lembrei dela agora, no meio destes questionamentos. E me veio, neste instante, um choro… Por lembrar que eu lembro, mas Antonia, já não lembra mais.

Antônia habitou no morro da Rocinha, na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Calculo que deve ter habitado por todos os seus 32 anos, se não falho por errar a idade. E habitou em seu “corpo saudável, ativo e batalhador” – como descreveu uma que a conhecia – até a última semana do mês de Abril. 2012 foi o fim do mundo para Antônia, ou, na verdade, o fim da Antonia no mundo.

Desde que a conheci, e mesmo após sua partida, não consigo deixar de pensar nela. Cheguei em sua casa como uma estranha, junto com outro estranho. Sorri para sua filha e cunhada e vendo-a, encantei-me. Eu estava onde queria estar: na maior favela da América Latina. Era a realização de um sonho. Aquele parecia ser o lugar mais alto do morro e nunca vou esquecer o que disse para Antonia: Que vista é essa?! Era um privilégio e era maravilhoso. De dentro de sua humilde casa, bem humilde mesmo, e apertada, havia uma janelinha mais humilde ainda. Como em uma TV de 29 polegadas ligada numa novela do Manoel Carlos, era possível ver o Cristo Redentor, toda a Baía de Guanabara e mais um Rio de pontos turísticos daquele Janeiro, mas era real. Aliás, eram meados de fevereiro quando visitei Antônia.

Muitas coisas e gestos eu não vou esquecer. A janela ficava à esquerda da cama de casal, coberta por uma manta simples e que ficava encostada na parede. Ela estava deitada no canto direito da cama, devia facilitar sua descida. Quando chegamos, eu, José, e a diretora da creche de seus filhos, como num súbito ela quis se levantar e nos receber mais ajeitadamente. “Magina, Antônia! Que é isso? Sente-se!”, eu disse. Ela não estava bem. Tinha seu olho esquerdo azulado, não devia ter visão. Por debaixo de sua blusa vi uma bolsa com algo escuro dentro, num tom escarlate.

Enquanto nos contava sua história – “Onde desliga a TV?”, perguntei. “Ali, ali na tomada! Ajuda ela cunhada?”, pediu Antônia. “Ah, achei, consegui”. – ela nos disse que durante a última gravidez descobriu que estava com câncer no ânus. Sua bebê estava com nove meses naquele fevereiro – e foi por vê-la na creche e saber que sua mãe estava doente é que chegamos à ela. Além desta, Antônia tinha mais quatro filhos pequenos. Uma, de uns 4 anos, chorava durante nossa conversa. Ela não queria o colo da mãe, provavelmente não sabia que o teria por pouco tempo. “O que você quer, filha?”, “Quero dinheiro, mãe!”. O marido, desempregado, suspeita-se que vendia bala.

Antônia não encontrou o tratamento nem as condições que necessitava. Ela não era o Lula e não era o Gianecchini. Era uma mulher forte e batalhadora, agora fraca e dependente, moradora do topo do morro, da Rocinha. O hospital que conseguiu era longe, não havia forças em sua casa corporal para ir. E mesmo se fosse, nunca fizeram o necessário por ela. Era uma doente terminal, terminando sua vida lá no topo.

Mas de todas as coisas que nunca vou esquecer, a mais forte delas não foi a oração que fiz deitando minhas mãos em seu corpo enfraquecido, mas foi a oração que ela fez, olhando para os Céus, com lágrimas em seus dois olhos: Eu tenho fé, muita fé, e sei que só Deus pode me curar e só Ele pode livrar! Antônia foi livre naquele dia, e me libertou.

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Hoje, ela já não está presa, mas passou pela porta entreaberta. Eu, que ainda presa estou nessa pressa do amanhã que quer anular meus dias e torná-los in-vividos e inexistentes, agora posso, me lembrando daquela anônima que é tão conhecida por meus pensamentos e pelo meu Deus, me desintoxicar desta corrida fatigante, andar, e viver “contentamente”… O dia que se chama hoje, e que Antônia já não vive mais.

Por Ananda Ribeiro